O alquimista

NEM TRANSMUTAÇÃO DE METAIS NEM ELIXIR DA LONGA VIDA - A PEDRA FILOSOFAL AO PODER

segunda-feira, junho 11, 2007

MEMÓRIAS DE CROCODILO

CAPÍTULO 21

No mês de Agosto era habitual os meus tios irem no final do dia “ao banho”. A partir das seis da tarde debruçava-me na varanda à espera de ver a Austin cinzenta surgir ao fundo da rua. Descobriria, mais tarde, que era este um óptimo local para ver as pernas às senhoras mais descuidadas que, incautas, passavam dentro dos automóveis. Percorríamos a Constituição, contornávamos a Ramada Alta até à Rotunda e descíamos a Avenida da Boavista até ao Castelo do Queijo.


Quando a maior parte dos banhistas enrolava as toalhas e o sol pintava no horizonte aquelas cores de postal ilustrado, nós chegávamos à Praia Internacional (embora por lá nunca me lembre de ter visto senão portugueses), despíamo-nos nas pequenas barracas às riscas, trocávamos a roupa por uma ficha de metal numerada que colocávamos em volta do pulso amarrada com um elástico, tirávamos a bola do saco e íamos aquecer para o banho.

Acompanhava-nos, normalmente, o proeminente abdómen do senhor Fernando farmacêutico, com que este enfrentava as vagas mais alterosas com o intuito, presumo, de o reduzir às estéticas proporções, não escapando, por isso, ao epíteto de barriguinhas com que eu gostava de o mimar para seu grande desconforto.


Mas dias havia em que o meu pai me levava logo pela manhã, alugávamos barraca e íamos ao Caninhas Verdes almoçar (quando não levávamos o almoço feito pela minha mãe), ali onde hoje está o monumento ao pescador.
A meio da tarde, cumpridos que eram os processos digestivos e metabólicos que nos aliviavam o estômago e por vezes os intestinos, afilava as orelhas tentando antecipar o pregão do homem dos gelados: “Olhó Rajá fresquinho, olhó Rajá fresquinho, estão a chamar, a chamar, a chamar mas eu já lá vou.” Outras vezes eram as batatas fritas, comidas de permeio com os grãos de areia que a sofreguidão não deixava limpar das mãos. Ou ainda os barquilhos, também chamados língua da sogra, que eram cones daquela massa com que hoje são feitos aqueles que envolvem os gelados. A estes, tínhamos direito em maior ou menor quantidade, conforme o número que a roleta situada na tampa do enorme balde vermelho de metal ditava. Qualquer que fosse o número da sorte, cada rodada custava cinco tostões…


No final da década de cinquenta, estava eu a fazer dez anos, veio ao Porto a Fórmula 1. O circuito compreendia a Avenida da Boavista, Fonte da Moura, Circunvalação e a Esplanada Rio de Janeiro mesmo junto à praia, onde se encontravam as boxes e a meta. Ao roncar dos motores deixava a praia por instantes e, por baixo das bancadas de madeira improvisadas assistia aos treinos, elegendo logo ali Sterlling Moss como o meu ídolo, convocado para as corridas de carros em miniatura, aqueles que os tinham, ou de sameiras, também conhecidas por caricas, os outros, que se passaram a realizar nas pistas alisadas à mão em plena areia.

2 Comments:

  • At 11:47 da tarde, Blogger Shelyak said…

    Barquilhos... quando passei uns tempos em Alcobaça, na casa dos meus avós, comia barquilhos sem conta mas, naquele caso, tinham a forma de um barco.
    Tudo tão giro... relembrar...
    Um abraço :)

     
  • At 12:50 da manhã, Blogger Aspásia said…

    AH OS TEMPOS DA PRAIA NESSAS TENRAS IDADES NUNCA SE ESQUECEM...

    TB SOU APRECIADORA DE BARQUILHOS EMBORA NAO TENHA SOGRA...

    AGORA... ESPREITAR AS PERNAS DAS SRAS. DA VARANDA PARA OS CARROS... MAS QUE PACHORRA O MENINO TINHA!!! E BOA VISTA FELIZMENTE, DEUS LHA CONSERVE!

    ERA SÓ ARMAR BARRACAS, TÁ VISTO...

    :))

     

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