O alquimista

NEM TRANSMUTAÇÃO DE METAIS NEM ELIXIR DA LONGA VIDA - A PEDRA FILOSOFAL AO PODER

quarta-feira, abril 11, 2007


MEMÓRIAS DE CROCODILO

CAPÍTULO 13


Com a precisão de um relógio suiço ou de um remate do Ronaldinho Gaúcho, a pescada e o bacalhau cozido alternavam ao jantar na casa dos meus tios. Religiosamente. Com a mesma religiosidade com que se desfiavam as contas do rosário depois de recolhidos os pratos e apanhadas as últimas migalhas. Cumpridas as formalidades do repasto que incluía o competente pedido de licença para abandonar a mesa, o Agostinho Terrão, filho de um empregado da padaria que ficara ao cuidado dos meus tios, e eu, filho de um dos donos da padaria e que era um pouco descuidado, como veremos já a diante, tratávamos de escolher a melhor rolha que tivesse ficado na mesa e, na cozinha ao lado, de porta a porta disputávamos renhidos jogos de uma modalidade que ainda hoje não sei bem definir e que consistia em atirar a dita ao ar, bater-lhe com uma das mãos e fazê-la entrar na porta do adversário, momentaneamente transformada em baliza.

Quando os éteres se não evaporavam totalmente das garrafas e às rolhas competia assumir a sua função hermética, aí passávamos a outra modalidade, essa sim bem mais conhecida, os matrecos, para usar um termo caseiro, matraquilhos como saberia que lhes chamavam mais tarde nos cafés e nos tascos, por experiência própria nos primeiros, por ouvir dizer, nos segundos. De reduzidas dimensões, pouco maiores que um tabuleiro de damas, (aqui o tabuleiro de xadrês poderia sem rebuço ocupar o lugar das damas, mas não o ocupa por duas ordens de razões, primeiro porque às damas se deve conceder toda a primazia como mandam as boas regras da etiqueta e o xadrês era jogo muito fino e pouco divulgado na época, o que não acontecia com as suas primas damas, no sentido de serem filhas de irmãos e não as primeiras) tinha-me sido oferecido pelo meu tio, teria eu os meus quatro anos.


Uma bela (?) noite, ao engarrafar o vinho que trouxera da aldeia terá ele carregado demasiado cedo na alavanca ou retirado eu o dedo demasiado tarde da embocadura da máquina (esta a dúvida que me tem acompanhado e que convosco quero partilhar) levando-me a entrar no hospital com ele, o dedo, ao dependuro, aquele que mais tarde tanta falta me faria, se o tivesse perdido e se pretendesse brindar com um gesto bem português aqueles condutores mais impacientes que nos buzinam à retaguarda. Mas não, felizmente a estreia do médico da urgência neste tipo de cirurgia correu bem. Espero que o meu dedo médio nunca se tenha virado contra ele.


E foi assim que tive direito a um jogo de matrecos. Ingénuo ou mártir, era a minha sina para a obtenção de prendas. Fora assim com o acordeão e assim fora com um pequeno jogo de futebol de mesa. Para cúmulo, não satisfeitos por quase me terem arrancado um dedo, obrigaram-me a ir com a empregada e a minha prima a pé até Ermesinde (umas três horas bem contadas para cada lado) levar um braço de cera à Santa Rita. Que diabo, só me tinham cortado um dedo.

(Continua)

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RESPOSTA 12: É o senhor careca do lado direito da primeira foto.

PERGUNTA 13: Por que é que me cortavam os sapatos à frente ?

6 Comments:

  • At 10:55 da tarde, Blogger MJ said…

    Doce Alquimista :-)

    Estou quase a fazer uma viagem ao passado para adoptar o Alquimistazinho que tanta ternura me inspira :-)

    Não percebi muito bem serventia do dedo durante a condução... :-))) mas... adiante :-)))

    "E foi assim que tive direito a um jogo de matrecos. Ingénuo ou mártir, era a minha sina para a obtenção de prendas"

    Pequenino, pequenino mas eras um um "ganda" espertalhão!:-))

    Vou começar a automutilar-me para ver se ganho um descapotável! :-))

    Beijo ingénuo*

     
  • At 12:11 da manhã, Blogger alquimista said…

    Olá João:

    Oh! oh! de pequenino se torce o destino...

    E quanto ao descapotável, eu pensaria muito bem antes de decidir o que iria mutilar:):):)

    Um beijo completo

     
  • At 12:07 da manhã, Blogger Aspásia said…

    SEU ALQUI

    VAO SE OS ANEIS MAS FICAM OS DEDOS...

    E CALCULE O SEU TERROR SE QDO DE DEU ESSE INFAUSTO SUCESSO JÁ ANDASSE A ARRANHAR UMAS ESCALAS DE DÓ... NALGUM INFELIZ PIANO, SONHANDO VIR A SER UM CHOPIN??

    MAS APRAZ ME VER (? , DIGO, IMAGINAR) Q SE MANTEVE UM HOMEM ÍNTEGRO DESDE TAO TENRA IDADE!!!

    QTO A MATRECOS NO I.S.T. EU ERA AVANÇADA E MARCAVA MUITOS GOLOS DE CANTO!!!(NÃO, NÃO ERA CORAL, ERA MESMO MATRECAL...)

    E ACERTEI NO CAREQUITA! JA DA OUTRA ACERTEI NO RENATO E AINDA NAO RECEBI OS MEUS BRINDES... ESTOU A ASSENTAR AS DIVIDAS NUMA AGENDA...

    BEIJOS INTEGRAIS.

     
  • At 2:32 da manhã, Anonymous IRMÃ CRISPINA said…

    OS SAPATOS ERAM CORTADOS PARA DAR QUE FAZER NA IRMANDADE DOS SANTOS CRISPIM E CRISPINIANO, OUTRO DIA APRESENTADA...

     
  • At 1:53 da tarde, Blogger alquimista said…

    Aspásia:

    Olhe que essa de marcar golos de canto não é fácil :). Prabéns!

    Quanto aos brindes, esses serão entregues no final das memórias, o que significa que como ando um pouco desmemoriado, estaremos a falar aí para o ano 2010 :)

    Bj

     
  • At 9:35 da tarde, Blogger MJ said…

    Ai! Que me esquecia da resposta!!!

    Pois bem... para não gastares as pontas aos pontapés à bola?

    Beijo bem lembrado*

     

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