O alquimista

NEM TRANSMUTAÇÃO DE METAIS NEM ELIXIR DA LONGA VIDA - A PEDRA FILOSOFAL AO PODER

domingo, abril 08, 2007

MEMÓRIAS DE CROCODILO

CAPÍTULO 12

Numa outra actuação, baseada na Cartilha Maternal de João de Deus, em que os intervenientes eram unicamente crianças, apresentava-se cada um de nós de bata branca com uma enorme letra presa ao peito feita em cartolina vermelha e, um a um, entravamos no palco debitando um texto em que a sua letra predominava, como por exemplo “Espirro se tomo rapé, resmungo se me arreliam…” relativo ao R que, neste caso, era a minha. Recordo-me que nos bastidores, antes do espectáculo, a azáfama era grande, o nervosismo maior e a minha vontade de urinar maior ainda. Iniciou-se a função e, um a um, lá fomos desfiando as contas do nosso abecedário até nos juntar-mos no final, alinhados, dando a ler ao público a palavra PORTUGAL. Disseram-me que me saíra a contento, que tinha movimentado muito bem os braços (que são as partes do corpo que mais estorvam o actor quando ele ainda não o é), mas que tinha estado um pouco preso de pernas. Pudera.

Outro galo cantaria, bastantes anos mais tarde, numa outra peça em que me foi dado o papel de emigrante português pretendente à mão de uma baiana numa peça com um título carregado de ambiguidade “O que é que a Baiana tem?”


O relato destas minhas incursões pelas artes da representação não ficaria completo se não trouxesse aqui um episódio que bem poderia fazer parte de qualquer sketch humorístico, actividade hoje muito em moda e que nos está a transformar num país de melancómicos. Teria eu os meus oito, nove anos e tocando acordeão fruto de uma prenda de anos do meu padrinho após insistentes pedidos de uma bicicleta, fui recrutado juntamente com mais outros dois elementos, o Marito Peludo (assim chamado por motivos óbvios) e uma outra rapariga da qual não me recordo o nome, para representar um número no intervalo de uma das peças. Sendo o Marito possuidor de uma bela voz para a sua idade, assim como que um Joselito dos Tarcísios (era este o nome dos sócios da Irmandade) que disputava com a Marisol as preferências cinéfilas da juventude do tempo, juntaram-nos num quadro de ceguinhos, eu a tocar, ele a cantar e a rapariga, talvez porque não tivessem ainda despontado nela os dotes artísticos, que os outros já os possuía, a pedir esmola com uma bandeja na mão.

Após aturados ensaios lá estávamos nós, eu sentado, acordeão aos ombros, óculos escuros e olhar difuso com o Marito a meu lado e a menina das esmolas. Abriu-se o pano e, quando me preparava para atacar a música, surge, precavido, o senhor reitor de estante e partitura em riste, colocando-as à frente do ceguinho acordeonista, na esperança de que ali mesmo, na presença da testemunhal plateia, acontecesse o milagre.



(Continua)

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RESPOSTA 11 : Porta da Sacristia


PERGUNTA 12 : Das cabeças que se vêm na plateia qual é a do Senhor Reitor?

4 Comments:

  • At 12:27 da manhã, Anonymous Anónimo said…

    OH ALQUI ESTOU BANZADA!

    MAS ISTO FOI UMA GRANDE PERDA PARA A DRAMAT-ORGIA NACIONAL!!

    ENTÃO COM TANTOS PAPEIS NO CURRICULO DEPOIS NAO SEGUIU ARTES (MELO)DRAMÁTICAS???

    E A FALAR SÓ COM ERRES...

    "RAIOS PARTAM O RAPAZ QUE IRRADIA TANTO APESAR DE PARECER QUE NÃO PARTE UM PRATO!" - PODIA TER DITO UMA FRASE COMO ESTA...

    E APESAR DE FAZER DE CEGUINHO, E EM TAO PRECOCE-IDADE NÁO LHE ESCAPARAM OS TALENTOS MAIS VISÍVEIS DA MENINA DAS ESMOLAS HEM??? (EM ESPANHOL SERIA LA LIMOSNERA),,,

    NÃO ME DIGA QUE DEPOIS LEU PELA PARTITURA...FOI MILLAGRE SE SANTA CECILIA E DE SANTA LUZIA JUNTAS, SECALHAR,,,

    QTO AO REITOR SERÁ O SENHOR CARECA EM FRENTE À ESTANTE?

    CARECA DE SABER DE QUE MASSA ERAM FEITOS O MENINO E OS SEUS CONDISCÍPULOS...

    BEIJOS DRAMÁTICOS

    :)

     
  • At 12:25 da tarde, Blogger MJ said…

    Doce Alquimista:-)

    Ora bem... Perdeu-se um talento...

    Ou, então, és mesmo mltifacetado.:-) Actor, escritor, desportista e "humorista"... :-) Sim, porque estes excertos da tua vida são contados de uma forma muito humorística :-)

    O Reitor deve ser o carequinha do lado direiro. Ele é que devia ser o professor de música!

    Beijo dramático*

     
  • At 2:35 da tarde, Blogger alquimista said…

    Olá Aspásia:

    Era "ceguinho" mas não era tolo... Para além disso, os outros sentidos desenvolvem-se muito mais:)

    Beijo

     
  • At 2:39 da tarde, Blogger alquimista said…

    Olá João:

    É verdade, perdeu-se um talento.

    Daí a minha galopante crise de identidade. Desde esses tempos que, em vão, me tento encontrar...:)

    Beijo talentoso

     

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