O alquimista

NEM TRANSMUTAÇÃO DE METAIS NEM ELIXIR DA LONGA VIDA - A PEDRA FILOSOFAL AO PODER

quinta-feira, maio 24, 2007

MEMÓRIAS DE CROCODILO

CAPÍTULO 20

Já que estou com a mão na massa, levedando um tema ainda pouco fermentado e que todos vocês ansiavam que aqui fosse cozinhado, como seja o das primeiras aventuras amorosas, sempre vos direi que a minha pudicícia o não permite, nem que corra o risco de vos ver, em sentido figurado, é bom de ver, novamente em sentido figurado, atirar com o livro (se é que das folhas A4 conseguiu passar), para a berma da estrada se o estais a ler ao volante, para o mar se estais na praia, para cima da mesa de cabeceira na cama ou para a sanita no jacuzzi.
Nunca foi minha intenção que estas míseras letras, juntas umas às outras até palavras se formarem, entremeadas aqui e ali por pequenos pontos, também ortograficamente assim chamados, pequenas curvas em forma de larva de seu nome vírgulas, todas agrupadas em frases, períodos e parágrafos até perfazerem um texto não com um sentido mas com dois (o meu e vosso, que nem sempre o mesmo é o sentido que nós damos às mesmas coisas), merecessem repousar, em forma de livro, nos escaparates da Fnac ou integrar as sugestões de Marcelo. Generoso, ainda assim, aqui deixarei alguns relatos circunstanciais, o que, atendendo a que o homem, como dizem, é a sua circunstância, não sobrará muita razão para grandes razões de queixa.

A Lélé e a Lili foram duas raparigas às quais dediquei alguma atenção enquanto rapazinho, naquelas idades em que às meninas não se pode, porque ainda não se sabe, dedicar outras coisas. A primeira era amiga de uns vizinhos nossos, o senhor Pedro e a D.Rosário que me incutiram o gosto pelas colecções de selos. Morávamos na Rua da Alegria, eu no 769 ela um pouco mais abaixo já não sei em que número, perto da casa onde viveu Guilhermina Suggia (essa mesmo a do amor proibido de Pablo Casals) no 665. Para dar música à Lélé tive de me pôr em bicos de pés (coisa que deixei de fazer em adulto para chegar onde quer que fosse), pois era ligeiramente mais alta do que eu na pequenez dos meus onze anos.
De todas as crianças que moravam no prédio eu era, a grande distância, o mais velho. Daí que, quando surgia alguém da minha idade, era justificado motivo de curiosidade, provavelmente acrescida se fosse menina, presumo eu agora. Estávamos debaixo daquelas escadas que existiam nas traseiras dos prédios que davam acesso dos andares até ao quintal, esquartejado em tantos “lotes” quantos os inquilinos, que neles plantavam cebolo, tomate, couves ou árvores de fruto e lembro-me que a Lélé se teve de curvar ligeiramente para eu lhe dar um beijo, ao mesmo tempo que eu batia com a cabeça na base inferior do patamar.

Foram escassos segundos libidinosos que não permitiram sequer ao Vicente constituir-se testemunha, ele que se arrastava pachorrento do fundo do quintal até ao início das escadas para comer os pedaços de carne que lhe atirávamos da varanda, até ao dia em que o meu pai, feito lavrador urbano, lhe cravou, incauto, a sachola na carapaça erguendo-o ao alto qual troféu de caça. A mesma enxada que o matou lhe cavaria, de seguida, a sepultura.

1 Comments:

  • At 12:30 da manhã, Anonymous LEITORA COM UM PÉ À FRENTE E OUTRO ATRÁS said…

    BEM... BEM... ISTO COMEÇA A ESQUENTAR...

    LÉLÉ??? LILI??? E ENTÃO A LÁLÁ, LÓLÓ E A LULU??

    ENTÃO ACREDITA-SE LÁ Q TENHA FICADO SÓ POR DUAS VOGAIS... CONSOANTE AFIRMA(?)...

    HMMM.. AQUI HOUVE AUTO-CENSURA... O SUPER-EGO!

    QUANTO AO VICENTE, FICO MUITO TRISTE!!! SÃO UNS BICHOS TÃO SIMPÁTICOS... MINHA IRMÁ TINHA UM, QUE TB MORREU AO CAIR DO 1º ANDAR PARA A RUA... JA NAO ERA TB MUITO NOVO, COITADO...

    QAUNTO AO JACUZZI SOUBE OUTRO DIA Q FOI UM ITALIANO QUE INVENTOU A BANHEIRA Q HOJE LHE ENVERGA O NOME... SABIA DESTA?

    MAS NÃO ME PARECE QUE ESTE "CROCODILO MEMORÁVEL" ALGUA VEZ VÁ CAIR NUMA SANITA, MA CHE COSA!

    BEIJOS DO 4º ANDAR PARA O PATAMAR DO REZ DE CHAUSSÉE...

     

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